A GAGUEIRA DE JOE BIDEN
Vamos falar de sistemas de compensações comportamentais eficientes para disfunções neurológicas e/ou neuropsiquiatrias
Hoje, Joe Biden fará o seu discurso anual no Congresso Americano direcionado especialmente para o seu povo. Verão uma fala fluente e ritmada, mas talvez o que muitos ignoram é que por trás desse discurso tem muita disciplina e técnicas implementadas para compensar a sua gagueira.
No dia 06/02/2023 o The New York Times publicou a matéria escrita por Katie Rogers “Biden’s State of the Union Prep: No acronyms and Tricks to Conquer a Stutter”, que julguei muito instigante quanto ao relato de preparação do Presidente Americano para o discurso que ele fará hoje (07/02/2023) à nação e suas técnicas para amenizar os efeitos da sua gagueira.
Segundo a autora da matéria, Biden é o primeiro presidente moderno com gagueira, problema que ele enfrenta desde a infância e que aumenta em condições de fortes emoções.
A reportagem traz um tom muito humano sobre um dos homens mais poderosos na arena política mundial para lidar com algo tão perturbador na comunicação para várias pessoas que passam por condição análoga.
Faço antes de continuar no tema um parêntese, para melhor entendimento do leitor no foco quanto a fundamentação sobre ser adaptado. É que atualmente, não uso nas minhas explanações o termo inclusão. Motivo? acho que ele trás no seu cerne o estigma da exclusão e não é propositivo no sentido de resolver os problemas que provocam as barreiras ambientais e pessoais, as limitações para a execução de atividades de vida diária e instrumentais em seu sentido mais amplo, bem as restrições de participação e o aspecto estrutural de uma deficiência quanto a função e estrutura do corpo. Portanto, hoje em dia sugiro reportar a Classificação Internacional de Funcionalidade Incapacidade e Saúde – CIF para se referir a ações para tornar a vida dessas pessoas mais funcionais e adaptativas e evitar o termo inclusão que em nada inclui sem tirar as barreiras e incapacidades que vivem pessoas com algum tipo de deficiência.
Então, voltando ao tema, antes de um discurso, Biden faz vários treinos de leituras do discurso. Ele prática na frente de teleprompters atentado para que a sua fala seja compreensiva e clara, ou seja, funcional para quem ouve. Assim, ele passa semanas trabalhando em cada discurso com seus redatores, lendo repetidamente, na íntegra e em voz alta.
Outra estratégia, é marcar o discurso com linhas e travessões sutis que a muito tempo ele usa como sinal para respirar, fazer uma pausa entre suas palavras ou orientar—se numa transição complicada. Essa manobra de controle respiratório para falhas na fluência é sem dúvida muito eficiente. A respiração é o nosso melhor regulador emocional, via componente fisiológico (um dos fatores foco de intervenção para pacientes com gagueira) e, por isto, no caso de pessoas que sofrem de gagueira se mostra eficiente a harmonização do fluxo da fala expressiva.
Segundo assessores, o Presidente Joe Biden não faz anotações para controlar sua gagueira em todos os discursos, mas o fez em alguns de seus discursos mais importantes e em reuniões com líderes estrangeiros no Salão Oval. Ele comentou com um ex-assessor que uma das coisas mais difíceis para um gago executar é fazer comentários em pé – o que venha a ser o seu trabalho diário.
Outras observações de seus assessores, em relação a sua estratégia compensatória, é a de que parece que Biden está marcando uma peça musical enquanto a prepara. E é isto mesmo, suas marcações se tornam notas de partitura para orientar a sua fluência harmônica em conjunto com o controle respiratório, como se fossem um compasso musical, e a tática é extremamente funcional.
Essa sua estratégia compensatória de apropriação do ritmo da fala por meio de um feedback métrico, visto em poemas e músicas por exemplo, se espraia para a imagética mental. Quando Biden ao saber do menino chamado Brayden Harrington que sofria de gagueira em uma campanha de 2020, ele o chamou para conversar nos bastidores e o recomendou um de seus poetas favoritos, o irlandês William Butler Yeats, para ajudá-lo a visualizar a fala, como um poema. Ele também mostrou ao menino as anotações que usou para o discurso do dia. “Depois de cada duas linhas ou palavras, ele desenhava uma linha reta, um espaço em branco entre as palavras, e isso indicava que ele precisa respirar” disse, Brayden em entrevista.
E a frase mais libertadora dita por Biden a essa criança, quando vemos os problemas pelo prisma da funcionalidade é, “Ah cara, suas imperfeições são seus dons”. Biden costuma referenciar a sua luta contra a gagueira como sendo algo do passado, mas costuma sugerir que seus primeiros anos – nos quais ele foi intimidado por colegas e um professor, até que sua mãe interveio – foram experiências formativas para moldar a resiliência e a empatia, a sua marca política, que lhe rendeu a presidência aos 77 anos.
“Aprendi muito tendo que lidar com a gagueira” disse Biden em um discurso de 2016 no Amercian Institute for Stuttering. “Isto me deu uma visão sobre a dor de outras pessoas.”
Como presidente, Biden frequentemente descreve sua gagueira como parte de um passado doloroso ao qual ele não retornará. Afirma “isto não pode definir você. Não vai definir você. Ponto final”, disse essas frases após visualizar numa campanha alguém segurando uma placa que dizia: “obrigado por gaguejar”!
Fonte: https://www.nytimes.com/2023/02/06/us/politics/biden-state-of-the-union-preparation.html