O traumatismo cranioencefálico leve (TCE leve) é caracterizado por lesões na cabeça com perda de consciência de até 30 minutos, amnésia pós-traumática e alteração de consciência por até 24 horas, sem evidências visíveis em exames. Recentemente, a atenção para o TCE leve cresceu, devido a lesões esportivas, acidentes e de combate amplamente divulgadas. Contudo, muitos casos passam despercebidos, levando a sintomas não reconhecidos e deficiências crônicas, como déficits de atenção, dores de cabeça, fadiga, estresse pós-traumático e problemas no funcionamento executivo.

Aproximadamente 70% dos casos de lesão cerebral traumática são considerados TCE leve e frequentemente são diagnosticados com base nas queixas do indivíduo, sem evidências objetivas após a lesão. Os sintomas do TCE leve podem ser confundidos com outros estressores, como dor, estresse pós-traumático, ansiedade e depressão.

Muitos indivíduos relatam sintomas cognitivos, físicos e psicológicos meses ou anos após o TCE leve, incluindo comprometimento do funcionamento executivo, afetando a atenção, memória, organização e planejamento. Isso pode impactar negativamente a capacidade de manter um emprego devido aos déficits no funcionamento executivo.

A conscientização das sequelas cognitivas de longo prazo do TCE leve levou ao desenvolvimento de protocolos de treinamento e reabilitação cognitiva. Diversos programas foram criados com foco na melhoria das funções cognitivas e adaptando-se às demandas diárias e funcionais do indivíduo. Alguns desses programas incluem:

1. Treinamento de Memória Estratégica e Raciocínio (SMART):

O treinamento SMART utiliza abordagens estratégicas de cima para baixo para aprimorar o controle cognitivo, como atenção estratégica, raciocínio integrativo e inovação. Seu foco é alcançar funcionalidade adaptativa nas áreas de educação e trabalho, direcionando-se para modular os domínios de atenção e funções executivas. Descobriu-se que o SMART melhora funções executivas, como raciocínio, inibição e habilidades do dia a dia.

2. Treinamento de Gerenciamento de Metas (GMT):

O GMT emprega estratégias metacognitivas para melhorar a capacidade dos pacientes de definir e atingir metas em situações da vida real. O objetivo é alcançar funcionalidade adaptativa em educação e organização de tarefas, com foco na modulação dos domínios de metacognição e funções executivas. Observou-se melhoria na função executiva cognitiva autorelatada na vida diária e melhor desempenho em tarefas que requerem atenção.

3. Terapia de Reabilitação Cognitiva (TRC):

A TRC tem como objetivo permitir que pacientes voltem, dentro do possível, a uma vida normal, por meio da reconstrução ou compensação de funções perdidas. Concentra-se na funcionalidade adaptativa em autoconsciência, com foco na modulação dos domínios de atenção e autocontrole. Embora tenha efeitos ao longo da terapia, não se observou transferência significativa de capacidade para a vida diária.

4. Gerenciamento de Sintomas Cognitivos e Terapia de Reabilitação (CogSMART):

O CogSMART é uma intervenção de treinamento cognitivo compensatório multimodal, enfatizando o aprendizado de hábitos e estratégias compensatórias na memória prospectiva, atenção, aprendizado, memória e funções executivas. Seu foco é a funcionalidade adaptativa em educação (aprendizado) e hábitos, com o objetivo de modular vários domínios cognitivos. Houve reduções significativas nos sintomas pós-concussivos autorrelatados e melhorias na qualidade de vida, memória prospectiva no mundo real e funcionamento diário.

5. Treinamento de Estratégia Cognitiva (CST):

O CST visa ensinar estratégias individuais que permitam aos pacientes contornar seus déficits cognitivos. Concentra-se na funcionalidade adaptativa em educação, estratégias de estilo de vida e rotina, com modulação dos domínios de memória, atenção e funções executivas. A CST mostrou utilidade percebida de estratégias de compensação cognitiva, redução da depressão e melhoria na satisfação com a vida.

6. Treinamento Cognitivo Compensatório:

Este treinamento é realizado em grupo, com apresentações didáticas interativas, discussões em sala de aula e atividades práticas. Ele visa melhorar habilidades de gerenciamento de tempo, organização, memória e atenção. Observou-se que os participantes enfrentaram menos dificuldades cognitivas e de memória após esse treinamento, além de um maior uso de estratégias cognitivas. Também facilitou mudanças comportamentais e melhorias subjetivas/objetivas em domínios cognitivos específicos.

7. Autorregulação da Atenção Orientada a Objetivos (OBJETIVOS):

O programa OBJETIVOS é um treinamento de reabilitação cognitiva que foca nas funções de controle executivo, ensinando estratégias de regulação da atenção e gerenciamento de metas baseadas na atenção plena. Ele visa a funcionalidade adaptativa nas áreas de habilidades e objetivos em ambientes da vida real, modulando os domínios de atenção, memória e funções executivas. As melhorias obtidas através deste programa se estendem para a cognição, regulação emocional e funcionamento diário.

8. Treinamento de Atenção:

O treinamento de atenção engloba desde tarefas simples, como o uso de flashcards, até atividades mais complexas para aprimorar a atenção complexa e a memória de trabalho. As evidências indicam melhorias significativas nas habilidades de atenção, incluindo atenção focada, sustentada, seletiva, alternada e dividida, bem como na memória.

9. Treinamento de Comunicação Funcional/Cognitiva:

Esse programa é voltado para a reabilitação da comunicação, permitindo que os pacientes pratiquem suas habilidades em situações contextuais relevantes para suas vidas. O foco é alcançar funcionalidade adaptativa nas áreas de audição, fala, escrita, leitura, conversação e interação social. Embora não seja um programa completo, enfatiza a importância de medir resultados significativos para a pessoa no contexto da participação social.

10. Programas Específicos para Retorno ao Trabalho (RTW):

As intervenções cognitivas do programa RTW visam aprimorar a memória, reduzir sintomas pós-concussivos e melhorar o funcionamento neuropsicológico. Estratégias cognitivas compensatórias, especialmente aquelas apoiadas por dispositivos de suporte, demonstraram ser mais eficazes para facilitar o retorno ao trabalho e a integração comunitária após o traumatismo cranioencefálico.

11. Técnicas Baseadas em Tecnologia: Realidade Virtual (RV), Treinamento com Inteligência Artificial (AIVTS) e Programas Computadorizados:

Logo, os resultados gerais indicam melhorias não apenas nas áreas moduladas, mas também em áreas não diretamente moduladas. Desta forma, a modulação cognitiva pode resultar em aprimoramentos funcionais. Além disso, ressalta-se a importância dos padrões de desempenho, hábitos e rotinas, assim como a necessidade de medir resultados significativos para a pessoa no contexto social. Enfatiza-se que o TCE leve é uma condição crônica, suas sequelas cognitivas podem piorar sem intervenções adequadas ao longo do tempo.

Fonte: Vas A, Luedtke A, Ortiz E, Mackie N, Gonzalez S. Cognitive Rehabilitation: Mild Traumatic Brain Injury and Relevance of OTPF. Occup Ther Int. 2023 May 29;2023:8135592. doi: 10.1155/2023/8135592. PMID: 37283959; PMCID: PMC10241584.